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A tradução e a teoria

Teoria e tradução

Escrito por Francisco César Manhães

História da tradução no Ocidente I

A tradução reverente

O primeiro tradutor do Ocidente cujo nome se registra foi Lívio Andrônico, que por volta de 240 a.C. traduziu a Odisseia em versos latinos. Névio, Ênio, e, sobretudo, Cícero e Catulo foram também tradutores frequentes de textos gregos ao latim. De Cícero vem a primeira formulação do preceito de não traduzir verbum pro verbo, palavra por palavra, estabelecida em seu Libellus de optimo genere oratorum, que Horácio incluiria em sua Ars poetica. Mas será com a Bíblia e suas traduções que a discussão sobre as bases da atividade tradutória ganhará relevância.

A Bíblia proporá questões particularmente complexas e polêmicas. Ao contrário do grego e do latim que tinham certo parentesco linguístico e compartilhavam de uma cultura mediterrânea relativamente consolidada e homogênea, os idiomas semitas e a cultura judaica ofereciam problemas instigantes e de difícil solução para os tradutores europeus. De fato, ainda se escutam ecos das discussões da época nas críticas de Haroldo de Campos[1] às análises da Bíblia de Harold Bloom ou nas restrições de Meschonnic às práticas de Nida e seu Summer Institute of Linguistics.[2]

 

Na época imediatamente anterior ao surgimento do cristianismo, a Bíblia, embora lida e recitada em hebraico, necessitava ser interpretada em grego e aramaico para os próprios hebreus que, em sua maioria, haviam perdido o contato com a língua da religião; o aramaico era então a língua oficial do Império Persa e o grego dominava o intercâmbio comercial e cultural. Estas versões aramaicas da Bíblia eram mais interpretações e comentários do que traduções propriamente ditas.

Para os próprios hebreus foi preparada, em meados do século III a. C, por ordem do rei greco-egípcio Ptolomeu II Filadelfo, a chamada Versão dos Setenta,[3] posteriormente adotada pelos cristãos. Já na era cristã surgiram outras versões para o grego: a de Símaco; a de São Teodósio, de inspiração cristã; e a de Áquila, hebreu, mais literal. Independente da qualidade ou fidelidade das versões, estas não eram bem aceitas pelos religiosos mais ortodoxos. Conta uma tradição judaica que a terra escureceu por três dias quando a Lei foi traduzida para o grego.[4] Em todo caso, surgia aí, implícito, o conceito de tradução.

São Jerônimo - desenho de Albrecht Dürer

Mas foi com São Jerônimo que a tradução bíblica adquiriu consistência empírica e teórica. São Jerônimo utilizou -se inicialmente dos Exempla, compilados por Orígenes, que consistiam nas quatro versões gregas então existentes mais o texto hebraico. Cotejava as versões gregas e mais as versões latinas da Versão dos Setenta e dirimia as dúvidas consultando o texto hebraico. Posteriormente, dedicou-se a uma versão totalmente nova do Antigo Testamento. A soma dessa tradução com a sua precedente revisão dos evangelhos mais o Novo Testamento revisto por outros sábios constituiu, entre os séculos VI e IX, a versão que ficou conhecida desde então como a Vulgata.[5]

Embora sua tradução seja mais próxima do texto hebraico que as versões latinas anteriores, São Jerônimo também recai em interpolações e abreviações, corrige incoerências, parafraseia. Intervenções que se tornam cada vez mais frequentes no decorrer da tradução. Utiliza como língua o latim popular, cristão, que na juventude abominara. Essa escolha levanta uma questão interessante e em geral ignorada: São Jerônimo, de certa forma, fez a tradução também do seu latim de homem culto ao latim popular, ou melhor, ao latim que ele atribuía ao povo. Por brilhante que fosse São Jerônimo, é muito raro, se acaso existe, algum exemplo de transcrição fidedigna da linguagem popular por um autor culto. A acreditar-se em Mario de Andrade, essa incapacidade de transcender o individual para absorver-se no coletivo é até mesmo uma felicidade, já que o êxito resultaria em falsificação.[6] De todo modo e arriscando-nos um pouco, cremos que o latim vulgar recriado por São Jerônimo, assim como depois o alemão de Lutero, influenciou o desenvolvimento posterior das línguas mesmo sendo criação de homem de gênio sobre bases populares e não pura expressão da coletividade. A influência das traduções sobre a evolução das línguas é um tema instigador, mas que deve ser tratado com maior extensão por gente mais habilitada no tema específico.

A Bíblia exige que sua tradução, como texto de doutrina e em nome da eficácia, seja naturalizante tanto quanto possível. Deve falar aos povos em sua mesma língua como se houvesse sido ditada diretamente em cada uma delas. Borges menciona um cabalista espanhol que afirmava que Deus fez as Escrituras para cada um dos homens de Israel.[7] Segundo a tradição o próprio Jesus falava as multidões heterogêneas sendo compreendido por todos como se falasse a cada um em sua própria língua. A tradução bíblica se propõe assim a "fazer" as Escrituras para todos os homens do mundo atualizando a promessa bíblica (essa é a visão, v.g., de A. Nida).

Exige ao mesmo tempo, como texto sagrado e exegético, um máximo de fidelidade literal. Em um texto do qual se diz ser a palavra de Deus, todas e cada uma das palavras e mesmo a sua ordem adquirem uma importância capital.[8] Um texto que faça exigências tão extremas e contraditórias oferece oportunidades excepcionais para a teoria da tradução. Sobretudo se consideramos que há um número significativo de traduções bíblicas muito bem logradas, revelando a atração que exerce sobre os grandes tradutores. Oferece mesmo a oportunidade de se reformular a velha oposição literalismo/recriação em outros termos, para reconciliar essas exigências antagônicas.

Ao longo do tempo e conforme a preocupação predominante, a tradução bíblica tem oscilado com maior ou menor fortuna entre uma e outra exigência, mas tende quase sempre a uma solução de compromisso. A Bíblia demanda um tipo de tradução que se pode chamar de tradução reverente, que combina recriação e literalismo, geralmente com predomínio deste último, e cujo protótipo ainda é a Vulgata de São Jerônimo.

A tradução reverente não é exclusiva das escrituras sagradas, mas estas são, sem dúvida, o protótipo do gênero; nós a encontramos naqueles textos aos quais Benjamin chamava genericamente de "grandes escritos".[9] Há, entretanto, diferenças de atitude diante dos diversos tipos de texto relevante, que implicam em distinções no modo de traduzir.

Para os povos da Antiguidade ocidental não havia o conceito de texto sagrado. Heráclito, Platão e Horácio encontravam incorreções e incoerências em obras de Homero, que todos reconheciam como o autor clássico por excelência. A concepção de texto sagrado penetra no Ocidente com a Bíblia e chega a contaminar, ainda que parcialmente, a própria concepção de clássico, sobretudo a partir do Renascimento.

Hoje sabemos que essa visão reverente da letra importou muitíssimo para a preservação dos grandes escritos. Sabemos que por si a escrita é uma reação à entropia; a reprodução dos grandes escritos leva essa reação a seu extremo. George Steiner escreve em "Homero e os especialistas":

A crítica mais apurada presumia que, se um texto fosse muito antigo ou tivesse sido reproduzido várias vezes, estaria irremediavelmente corrompido. Agora não temos tanta certeza. Comparações entre os pergaminhos do Mar Morto e a versão canônica da Bíblia sugerem que a literatura quando considerada sagrada, era transmitida com grande fidelidade. Por reverência, os escribas ou escolásticos futuros até mesmo reproduziam erros ou palavras arcaicas que não compreendiam.

(George Steiner, Linguagem e silêncio, p. 207.)

Assim, a tradução reverente busca eludir a entropia, preservando ao máximo o texto "definitivo", o que forçosamente obriga à busca do compromisso entre o literalismo e a interpretação respeitosa.

Desde São Jerônimo, praticamente todos os tratados sobre tradução distinguem entre a tradução de documentos cotidianos - pessoais, comerciais, eclesiásticos -, efêmeros por definição, e o traslado de um texto literário, filosófico ou religioso.

As posições de São Jerônimo sobre a teoria e a prática da tradução são as formulações pioneiras da referida versão reverente. Na epístola LVII, datada de 395, São Jerônimo[10]Salmos, que “a regra do bom tradutor é exprimir as locuções idiomáticas de outra língua de acordo com o que seja próprio na sua língua; desde que não se perca o significado e se respeite a eufonia e as propriedades da língua em que se traduz”.[11] responde à acusação de haver manipulado o sentido na tradução de uma carta de Santo Epifânio. São Jerônimo defendeu a fidelidade essencial de sua versão e reafirmou o princípio da tradução livre que, de resto, predominava entre os seus contemporâneos. Assim convinha traduzir os textos leigos, mas os textos sagrados, onde a ordem das palavras compunha parte do sentido profundo, demandavam outro tipo de tradução. São Jerônimo contrapõe à liberdade da tradução cotidiana o literalismo recomendável para os textos sagrados. Remete, porém, na mesma epístola, a exemplos em que a tradução por ele considerada ideal não era propriamente a mais literal. Na epístola CVI, escrita no ano 400, destaca a importância de se recorrer ao original hebraico para se dirimir dúvidas, mas acrescenta, a propósito dos


[1]Haroldo de Campos, "A Astúcia da Serpente (O poeta Haroldo de Campos 'transcria' os capítulos bíblicos sobre a queda do homem)", Folha de São Paulo, caderno Mais!, 7 de maio de 1995, p. 4.

[2]John Milton, O poder da tradução, p. 134.

[3] Segundo Javier Marías

Deve-se o conceito moderno de tradução precisamente à Bíblia e à versão conhecida como 'os Setenta'. Antes, os textos eram vertidos com descuido, de maneira utilitária, para que fossem somente entendidos. Porém não se tinha certeza de que a Bíblia pudesse ser traduzida, uma vez que era a 'palavra de Deus' e não cabia aos homens alterá-la.
Conta-se que 70 sábios foram encerrados em suas celas para traduzi-la, e que, ao sair, todas as suas versões coincidiram ponto por ponto, como se os 70 tivessem sido inspirados pelo sopro divino. Certamente aqueles que se dedicaram a esta tradução esmeraram-se ao máximo, conseguindo que cada palavra em hebraico tivesse uma correspondente grega, cada vírgula uma vírgula, e cada ponto um ponto. Inventara-se a fidelidade e até mesmo a literalidade. Introduziu-se na mentalidade humana a sacralização dos textos, o que permite que o Quixote seja imutável e comece dizendo: 'Em um lugar da Mancha, de cujo nome não quero me lembrar...', embora saibamos hoje que 'não quero' significava também 'não creio'. Isto também faz com que as passagens obscuras e misteriosas de Shakespeare permaneçam na sua infinidade de traduções, porque do contrário não seriam Shakespeare.

Javier Marías, "A inquisitorial demência do politicamente correto", Folha de São Paulo, caderno Mais!, 7 de janeiro de 1996, p. 10, tradução Lilia Astiz.

[4]A lenda corrente de que setenta tradutores gregos, trabalhando isoladamente, chegaram todos a uma tradução coincidente palavra por palavra não é menos incrível que a lenda do escurecimento do mundo por três dias.

[5]O termo era inicialmente aplicado à Versão dos Setenta e suas versões latinas.

[6]Mario de Andrade, "Juvenal Galeno", Taxi, p. 351-353.

[7]Jorge Luis Borges, "La Poesía", Siete Noches in Obras Completas 1975-1985, p. 254.

[8]"Em um livro sagrado são sagradas não somente suas palavras como também as letras com que foram escritas", Borges, "La Cábala", op. cit., p.268.

[9]Walter Benjamin, A tarefa do tradutor, p. 32.

[10]Giulio Lepschy, "Tradução" in Enciclopédia Einaudi, p. 287.

[11]Ibidem.

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