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Virgula e ponto e vírgula

Linguagem

Escrito por Francisco César Manhães

“Que moça culta, a Maria Eduarda: usa ponto e vírgula!”
“Quando completei quinze anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto e vírgula! Nunca fiquei tão impressionado na minha vida”.

Mário Quintana

 

O ponto e vírgula! Não admira que Quintana ou sua persona lírica ficasse impressionado com seu uso.  Mais impressionante ainda é que alguém o empregue corretamente, fiando-se na definição tradicional: seria o sinal “que indica, na escrita, uma pausa maior que a marcada pela vírgula e menor que a marcada pelo ponto” (Dicionário Escolar da ABL). Maior que a vírgula e menor que o ponto, como se fosse uma notação musical e esta noção subjetiva de duração tivesse alguma relevância justamente na escrita.

Esqueçamos por um momento o ponto e vírgula. No capítulo da chamada pontuação, o emprego da vírgula é tão mais importante que esta arte deveria chamar-se de “virgulação”. O uso do ponto, além de menos numeroso, é menos sujeito a erro. De fato, sabendo-se usar corretamente as vírgulas, o uso dos demais sinais de pontuação vem mais ou menos em consequência.

A vírgula corresponde a uma pequena pausa que se faz ao falar e que é exigida pelo sentido. Porém, o sentido é mais importante que a pausa em si. Na leitura em voz alta, respira-se coincidindo com a pontuação e não o contrário: não se pontua para marcar a respiração, mas sim o fluxo de idéias. Daí que, para colocar as vírgulas corretamente, convém reler o escrito em voz alta (ou não tão alto), fixando-se nessas pausas breves, mas não apenas nelas. Tais pausas costumam coincidir com o final de entidades gramaticais bem definidas, o que permite formular algumas regras de validade geral.

 

Separam-se com vírgula:

a)    Os elementos de uma série de palavras ou de grupos de palavras, inclusive orações, de idêntica função gramatical, quando não estão unidos por conjunção:

Os operários, os empresários, o governo e a imprensa estão de acordo nisto.

b)    Os vocativos:

Marta, traga um café.

c)    Os incisos que interrompem momentaneamente o curso da oração:

Eu, que ignorava a causa, me assustei.

d)    As locuções e os advérbios como no entanto, efetivamente, na realidade, contudo, por exemplo, em primeiro lugar, por último, isto é, quer dizer, etc.

A luz, no entanto, permaneceu acesa.

e)    Escreve-se, igualmente, a vírgula após uma oração subordinada quando precede a principal:

Para não esquecer, fez uma anotação na agenda.

f)     Após uma prótase condicional (quer dizer, a proposição começada por se):

Se o encontrar, diga que estou esperando por ele.

g)    Diante das subordinadas consecutivas:

Havia tanta fumaça, que não podia respirar.

Penso, logo existo.

h)    A vírgula aparece no lugar de um verbo que se omite por ser o mesmo da oração anterior:

Eu assisti o futebol; Carlos, o basquete.

i)     A vírgula é usada para destacar os apostos:

O deputado, firme em sua determinação, insistiu em apresentar a emenda.

j)     A vírgula nunca deve separar o sujeito do predicado.

k)     A vírgula pode ser usada diante da conjunção e quando esta une orações de certa extensão com distinto sujeito.

A Polícia Militar cuida do policiamento ostensivo, e a Polícia Civil, das investigações criminais.

O ponto e vírgula marca uma pausa mais intensa que a vírgula e menos intensa que o ponto. Para não repetirmos o erro comum, observe que não se trata de uma questão de duração física, mas de hierarquia e clareza: o ponto e vírgula, normalmente, vai após pedaços de oração seriados que possuem uma autonomia superior àquela marcada pela vírgula e que às vezes coincidem com a mudança de sujeito:

Os que dirigem sem respeitar os sinais de trânsito, atravessando os semáforos; os que jamais param diante das faixas de pedestres; os que acham que o carro os faz superiores aos pedestres, enfim, são exemplares muito perigosos da fauna urbana.

b)    Separa orações completas relacionadas e de certa extensão (que se fossem curtas seriam separadas por vírgulas).

c)    É muito frequente a necessidade de empregar o ponto e vírgula para separar frases onde já ocorrem vírgulas:

O público, quando acabou o comício, começou a sair; mais que entusiasmado, demonstrava cansaço; as pessoas falavam dos oradores com decepção.

d)    Em todo período de alguma extensão se porá ponto e vírgula antes das conjunções adversativas mas, porém, ainda que, no entanto, etc.

e)    Sempre que a uma oração segue, precedida de conjunção, outra oração que não tem um enlace perfeito com a anterior.

Mas nada disso bastou para desalojar o inimigo, até que a artilharia abriu caminho para o assalto final; e se observou que apenas um dos alemães se rendeu aos brasileiros.

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