Linguagem
“Que moça culta, a Maria Eduarda: usa ponto e vírgula!”“Quando completei quinze anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto e vírgula! Nunca fiquei tão impressionado na minha vida”.
Mário Quintana
O ponto e vírgula! Não admira que Quintana ou sua persona lírica ficasse impressionado com seu uso. Mais impressionante ainda é que alguém o empregue corretamente, fiando-se na definição tradicional: seria o sinal “que indica, na escrita, uma pausa maior que a marcada pela vírgula e menor que a marcada pelo ponto” (Dicionário Escolar da ABL). Maior que a vírgula e menor que o ponto, como se fosse uma notação musical e esta noção subjetiva de duração tivesse alguma relevância justamente na escrita.
Esqueçamos por um momento o ponto e vírgula. No capítulo da chamada pontuação, o emprego da vírgula é tão mais importante que esta arte deveria chamar-se de “virgulação”. O uso do ponto, além de menos numeroso, é menos sujeito a erro. De fato, sabendo-se usar corretamente as vírgulas, o uso dos demais sinais de pontuação vem mais ou menos em consequência.
A vírgula corresponde a uma pequena pausa que se faz ao falar e que é exigida pelo sentido. Porém, o sentido é mais importante que a pausa em si. Na leitura em voz alta, respira-se coincidindo com a pontuação e não o contrário: não se pontua para marcar a respiração, mas sim o fluxo de idéias. Daí que, para colocar as vírgulas corretamente, convém reler o escrito em voz alta (ou não tão alto), fixando-se nessas pausas breves, mas não apenas nelas. Tais pausas costumam coincidir com o final de entidades gramaticais bem definidas, o que permite formular algumas regras de validade geral.
Separam-se com vírgula:
a) Os elementos de uma série de palavras ou de grupos de palavras, inclusive orações, de idêntica função gramatical, quando não estão unidos por conjunção:
Os operários, os empresários, o governo e a imprensa estão de acordo nisto.
b) Os vocativos:
Marta, traga um café.
c) Os incisos que interrompem momentaneamente o curso da oração:
Eu, que ignorava a causa, me assustei.
d) As locuções e os advérbios como no entanto, efetivamente, na realidade, contudo, por exemplo, em primeiro lugar, por último, isto é, quer dizer, etc.
A luz, no entanto, permaneceu acesa.
e) Escreve-se, igualmente, a vírgula após uma oração subordinada quando precede a principal:
Para não esquecer, fez uma anotação na agenda.
f) Após uma prótase condicional (quer dizer, a proposição começada por se):
Se o encontrar, diga que estou esperando por ele.
g) Diante das subordinadas consecutivas:
Havia tanta fumaça, que não podia respirar.
Penso, logo existo.
h) A vírgula aparece no lugar de um verbo que se omite por ser o mesmo da oração anterior:
Eu assisti o futebol; Carlos, o basquete.
i) A vírgula é usada para destacar os apostos:
O deputado, firme em sua determinação, insistiu em apresentar a emenda.
j) A vírgula nunca deve separar o sujeito do predicado.
k) A vírgula pode ser usada diante da conjunção e quando esta une orações de certa extensão com distinto sujeito.
A Polícia Militar cuida do policiamento ostensivo, e a Polícia Civil, das investigações criminais.
O ponto e vírgula marca uma pausa mais intensa que a vírgula e menos intensa que o ponto. Para não repetirmos o erro comum, observe que não se trata de uma questão de duração física, mas de hierarquia e clareza: o ponto e vírgula, normalmente, vai após pedaços de oração seriados que possuem uma autonomia superior àquela marcada pela vírgula e que às vezes coincidem com a mudança de sujeito:
Os que dirigem sem respeitar os sinais de trânsito, atravessando os semáforos; os que jamais param diante das faixas de pedestres; os que acham que o carro os faz superiores aos pedestres, enfim, são exemplares muito perigosos da fauna urbana.
b) Separa orações completas relacionadas e de certa extensão (que se fossem curtas seriam separadas por vírgulas).
c) É muito frequente a necessidade de empregar o ponto e vírgula para separar frases onde já ocorrem vírgulas:
O público, quando acabou o comício, começou a sair; mais que entusiasmado, demonstrava cansaço; as pessoas falavam dos oradores com decepção.
d) Em todo período de alguma extensão se porá ponto e vírgula antes das conjunções adversativas mas, porém, ainda que, no entanto, etc.
e) Sempre que a uma oração segue, precedida de conjunção, outra oração que não tem um enlace perfeito com a anterior.
Mas nada disso bastou para desalojar o inimigo, até que a artilharia abriu caminho para o assalto final; e se observou que apenas um dos alemães se rendeu aos brasileiros.